O Maquinista
Por força
do hábito escovou os dentes, penteou o pouco cabelo que tinha,
fez a barba rala, comeu um pão com manteiga e olhou para mulher
como se nada tivesse acontecido. Acendeu um cigarro e tossiu uma tosse
porca, como se tivesse tossindo a vida que incomodava no pulmão
fraco. Deu dez passos até a porta e saiu sem dizer tchau.
No caminho do trabalho, tinha a fisionomia calma. E um assobio sem ritmo
resvalava nos lábios rachados de frio.
Pronto pra pegar no batente, recebeu tapinhas nas costas, e entrou em
uma conversa furada sobre futebol.
" Mas o timão é campeão do mundo"
" Campeão do mundo aonde, nem existe mais esse campeonato"........diziam
as vozes sem rumo, com motivação puramente mecânica.
Sua máquina estava fria. O ferro era uma coisa fascinante para
aquela cabeça desacostumada a pensar, o metal reluzente transcendia
a carne, desafiava as leis da física em seu andar maquinal, que
por vezes deixava faíscas nos trilhos envelhecidos e gastos pelo
uso.
Beto entrou na cabine do trem, e sintonizou uma emissora brega, que
tocava um pagode cheio de lamúrias. O metal range contra o metal,
e a dor fica por ali, na garagem onde jaziam dezenas de vagões
mortos pelo tempo. Estação Brás. ATENÇÃO
DEIXEM AS PORTAS LIVRES, PROCURE ESPAÇOS VAZIOS NO MEIO DO VAGÃO,
ouviam os passageiros espremidos por todos os lados, suando mesmo antes
de chegar ao trabalho. E a ladainha continuava. OS BANCOS DE COR CINZA
SÃO RESERVADOS POR LEI PARA IDOSOS, GESTANTES E DEFICIENTES FÍSICOS.
QUEM TEM BOM SENSO RESPEITA ESSE DIREITO.
As poucas grávidas que encaravam aquele tumulto realmente tinham
o direito de sentar assegurado por uma espécie de moral coletiva,
a mesma que fazia com que os criminosos matassem estupradores na cadeia.
Mas a boa educação acabava por aí. Para entrar
no vagão, se passava pela prova dos dez, e muitos ficavam ali
mesmo, no vão entre o trem e a plataforma. Quem caia no abismo,
resultado de descaso de algum engenheiro que jamais passaria por ali,
geralmente eram mulheres dos seu quarenta anos, envelhecidas a ponto
de ouvirem lá de baixo; "Vixe! Caiu outra tiazinha no buraco...."
E saia a locomotiva, bem mais pesada do que chegou, vagarosa, sem pressa,
apesar de carregar muita pressa dentro de si.
Beto estava alheio a tudo, como sempre, mas algo tinha mudado. Não
era um pensamento, era uma espécie de euforia que só havia
sentido aos quinze anos de idade, quando perdera a virgindade. Seu corpo
estava mais leve, e parecia que carregava uma alma dentro de si. O trabalho
fatigante que o atordoava todos os dias não parecia problema
para o homem. Dessa vez ele sentia tamanho poder fluindo em sua mão,
quando empurrava pra frente e pra trás a alavanca que controlava
a velocidade do trem, que esquecia da vida. Se sentia uma espécie
de Deus, ao recitar os bordões ferroviários. E se assustou
com a monotonia que já sentira naquele banco duro. Pela primeira
vez tentou dizer algo, só pra ter certeza de que aquilo era verdade.
OS PÁSSAROS AZUIS VOAM PELO BOSQUE EM BUSCA DE ALPISTE. Nem passara
pela sua cabeça que pássaros não saem por aí
procurando alpiste como quem sai em busca de cigarros na madrugada,
rezando para encontrar algum bar aberto.
A multidão viu com estranheza o prolixo pronunciamento do maquinista,
mas logo esqueceu do pássaro azul. Então ele tentou de
novo, já que não sentiu nenhuma manifestação
ali de dentro da cabine. TIMÃO É CAMPEÃO. De repente,
mesmo atordoado pelo barulho feito pela máquina em péssimo
estado de conservação, sentiu os gritos da torcida virem
feito uma onda e acabarem da mesma forma.
Beto pela primeira vez na vida se sentiu ouvido. Sem perceber acelerou
o trem, com um leve empurrão na alavanca. De novo, o povo percebeu
e aprovou.
"Se todo dia fosse nessa velocidade eu podia sair mais tarde de
casa", falou um rapaz dos seus vinte e cinco anos de idade, para
uma moça feia, que cheirava a talco. Então a velocidade
continuou aumentando e aumentando até que as pessoas começassem
de fato a se preocupar com a pressa do maquinista. Os solavancos derrubaram
um uma senhora, que caiu em cima de outra senhora, e começou
uma discussão.
" Mas você se jogou em cima de mim de propósito",
disse a que aparentava ser mais velha. E a outra revidou falando que
não era obrigada a agüentar esse tipo de gente. " Se
quer conforto pega táxi...." E assim foi durante uns quinze
minutos, até que as duas, indignadas, resolveram ir uma pra cada
um lado.
Beto reuniu todas suas forças em uma gargalhada profunda e infinita.
Era uma risada idiota,que lhe deixou para sempre um sorriso oco, com
ar de quem bateu a cabeça quando criança. Figuravam também
naquela face as rugas de preocupação com as contar a pagar
e outras coisas, que agora eram ninharias para aquela alma liberta.
Sem nem perceber passou a estação, na qual tinha que parar.
Não teria percebido nunca se não ouvisse os gritos de
protesto.
"Ê motorista filho de uma puta!!!!!Pára essa porra!!!!!"
E as pancadas ficavam mais fortes na porta que separava a cabine do
maquinista dos passageiros furiosos.
O pânico foi tomando conta dos vagões, um a um. E de repente
aquele era um trem fantasma sem rumo, nem maquinista - porque este tinha
entrado em um estado de transe permanente e nem sequer ouvia os apelos
da central ferroviária pelo rádio.
Beto percebeu que durante trinta anos teve milhares de vidas em suas
mãos. E pensar que nada fazia com a sua! Agüentou desaforos
de mulher, amigos, família, da companhia ferroviária,
que dificilmente lhe pagava em dia. Viveu toda sua vida sem ter um só
luxo. Comia para viver, bebia para esquecer e fazia sexo por fazer.
Nada tinha muita graça desde que se viu homem e só no
mundo. Já não tinha mais uma mãe que se preocupasse
com ele incondicionalmente. E sua esposa, essa andara lhe passando pra
trás. Ah, como ele queria não acreditar. Mas não
tinha como. Embora nunca tivesse visto nada, rolavam boatos na vizinhança
que "o açougueiro andara enfiando o facão no pernil
alheio". Ele fingia-se de bravo. "Da próxima vez que
ouvir esse papo, mato o cabra que ousou abrir a boca para falar besteira".
Ele até que se dava bem com a mulher, mas por conveniência.
Ela era estourada e quando desse por si já estaria longe, "caso
aquele traste encarnasse nela". Ela, que havia casado só
pela gravidez inoportuna, jamais sentira um pingo de amor por aquele
vegetal, que vivia de chinelos e meia pela casa, lhe pedindo uma pinguinha
aqui, uma cerveja ali, sem sequer agradecer, ou dar-lhe um presentinho,
uma rosa que fosse. Ela que foi boba, devia ter casado com um homem
rico, quando teve oportunidade. Mas não.E para piorar, com o
passar dos anos o marido tomou uma forma repugnante diante dela, que
chegava a lhe causar asco, quando o sujeito resolvia trepar nela e fazer
"aquela sujeirada toda".
Beto sentia esse nojo na cara da mulher, que não verbalizava
esse tipo de reação, mas nunca fez questão de esconder.
Agora estava ele ali, com um monte de dissimulados em suas mãos.
Eles cortariam sua cabeça se pudessem. Mas ele o faria primeiro.
VOCÊS VÃO MORRER SEU FILHOS DA PUTA! Gritou com vontade
no microfone. E então, não parou mais de vociferar. Os
passageiros, que já estavam em pânico, caíram numa
espécie de delírio coletivo. Uns choravam, outros se atiravam
das janelas e se arrebentavam no chão. Um sujeitinho baixo e
gordo tentou passar pela janela estreita e ficou entalado por ali algum
tempo, durante o qual chorou desesperadamente para que o resgatassem.
Como todos estavam no mesmo barco, muita gente veio em socorro do homem.
Resultado: durante uma dessas operações, com o trepidar
do trem, acabaram derrubando o sujeito, que se estatelou debaixo da
máquina até virar um pedaço de carne preso às
roldanas.
Teve gente que resolveu tirar a barriga da miséria antes de morrer.
Um gordo alto agarrou uma menina dos seus dezesseis anos e tentou estupra-la,
mas foi detido por uma horda de bem-feitores, que pensavam previamente
no céu. Já o casal de namorados se abraçou forte
e preparou-se para morrer sem dor, como viam nas novelas da TV.
Nunca Deus foi tão clamado quanto naquele momento, porque ao
contrário dos mortos em incêndio, que não conseguiam
pensar em nada devido à fumaça quente e ao fogo tão
próximo, os passageiros daquele trem não sentiam nenhuma
dor física. Era uma confusão mental que endoidava uns
e anestesiava outros. Uma senhora não saiu de onde estava, e
a custo desistiu de terminar o cachecol de tricô que estava quase
pronto. Alguns poucos tentaram invadir a cabine. Mas como o trem estava
abarrotado de gente, não tinham espaço para arrombar aquela
porta tão bem fechada, feita para resistir a esse tipo de tumulto.
Perto do fim da linha, quase conseguiram estourar a porta, num esforço
coletivo para entrar na cabine do maquinista, parar o trem e "matar
o fio duma égua".
Quando Deus não era mais pauta pra ninguém, o trem começou
a parar. Beto ficou intrigado, e empurrou até o fim a alavanca
de velocidade. A máquina deu um último impulso, mas foi
parando feito um balanço vazio, sem ninguém para empurrá-lo.
Só agora se lembrara dos avisos da central, e sobre o corte da
eletricidade.Só agora se lembrava que aquela força toda
que sentia nas mãos não era sua. Só agora se sentiu
pequeno, como sempre foi. Um arrepio subiu pelas costas. Então,
olhou para os lados.Já era tarde. A multidão pulava pelas
janelas e caminhava de encontro à cabine. E pela janela, pôde
ver toda a plebe sob os trilhos, com pedaços de pau e pedras
na mão.
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