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agosto 07, 2004
Me afoguei no capuccino
Profissões. Já tive várias. A maioria delas, péssimas. Já trabalhei entregando santinhos de vereador, carreguei caixas, fui contador, até entrar no jornalismo. A pior de todas foi como atendente de telemarketing.
O martírio durou três meses, um dia e seis horas. Ainda me lembro do prédio metálico, de móveis metálicos, até as privadas com molde futurista. Tinha crachá e um café de máquina, que até hoje me lembra telemarketing, mas que foi o único responsável pela minha sobrevivência. Eram seis horas de trabalho. Quinze minutos de folga, que eu preenchia com cerca de 5 ou 6 capuccinos com chocolate. Além da cafeína, a sensação de dar algum prejuízo à multinacional tinha um que de consolador.
O trabalho consistia em agendar consultas para o SUS. Detalhe: não havia vagas jamais. Portanto, além de “senhor” e “senhora” eu só dizia: não há vagas. Não. Senhora. Há. Senhor. Vagas. Bom dia, boa tarde, boa noite. E atrás de mim, com um chicote não mão, ficava plantada a tal da coordenadora. “Estamos com 160 pessoas na fila! 150! 140! Um milhão!”. Como se a velocidade do trabalho dependesse da minha performance, como se quando eu terminasse uma ligação não viesse outra, automaticamente, interminavelmente, o fone no ouvido, o nó na garganta, os cafés no estômago, mil gritos de guerra na alma: NÃO-HÁ-VA-GAS, SE-NHO-RA!
Uma menina de 24 anos teve um infarto, a 5 metros de mim. Passei a tomar mais café. Morro de úlcera, de enfarto, não.
Um dia o telefone tocou. Era o celular. Arrumei outro emprego. Nem liguei, peguei os passes, saí, queimei o uniforme, joguei no esgoto, sei lá o que fiz. O salário era bom, mas troquei por um que era três vezes menor.
Ligaram pra minha casa perguntando o que tinha acontecido. Eu estava doente? Não, senhora, estou é de saco cheio. Não, não vou devolver os passes, nem o uniforme, nem nada. Morri, não me encham mais. Desliguei.
Isso deve fazer uns quatro anos, foi, no começo da faculdade. Não, não aprendi nada com isso, mas essa noite estava aqui, satisfeito, e lembrei das pessoas que trabalhavam comigo, gente simples, não muito inteligentes, talvez não cheguem a lugar nenhum, outros já devem ter enfartado, ou, seguindo meus passos, afogaram-se no capuccino. Morreu de quê? De telemarketing. Boa noite, senhores. Tu. Tu. Tu.
Posted by artur at agosto 7, 2004 11:54 PM
Comments
Metaphysics is the finding of bad reasons for what we believe upon instinct, but to find these reasons is no less an instinct.
Posted by: penis enlargement at outubro 25, 2004 12:32 PM
If a little knowledge is dangerous, where is a man who has so much as to be out of danger?
Posted by: online casino at outubro 25, 2004 12:32 PM
In the consciousness of the truth he has perceived, man now sees everywhere only the awfulness or the absurdity of existence... and loathing seizes him.
Posted by: penis enlargement at outubro 25, 2004 12:33 PM
There is no great genius without some touch of madness.
Posted by: penis enlargement at outubro 26, 2004 09:56 AM
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Posted by: bondage art at outubro 29, 2004 01:40 PM