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dezembro 06, 2004
Visões
Sonhei um troço que parece um número de circo bizarro. Um pulando do prédio pra pegar o outro que caiu numa queda sem fim de um prédio de tijolos vermelhos. E vice-versa.
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Outro dia vi por aí o que chamam de coragem. Puta que o pariu se esse troço não é perigoso e admirável.
***
Outro dia também vi, só que em outro lugar, em outra pessoa, o que chamam de mulher fatal. Uma espécie de Mata Hari do mundo moderno que também deveria ter nascido em preto e branco, espiã de pensamentos, de olhos pretos de pólvora, gênio de chocolate amargo, referências da malandragem e a intocabilidade das santas que não inspiram sentimentos dos mais castos.
por Artur Rodrigues às 10:39 AM | fala
aí (0)
novembro 28, 2004
O fim
Sexta-feira eu me formei. Depois de meses apanhando da nossa própria falta de disciplina, eu e meu grupo de TCC apresentamos nosso projeto, um livro sobre a comunidade boliviana em SP. Na banca, estava um dos idealizadores do Gardenal, o Pablo, que nos deu a honra de aceitar nosso convite.
Tiramos 10. Foi legal. Famílias presentes e o caralho, embora eu não tenha convidado ninguém, porque tenho a leve impressão que esse tipo de evento deve ser um saco para quem não está participando ativamente dele.
Agora que acabou, vem o vazio, o alívio, a esperança e mais tempo para escrever aqui. É bem provável que eu esteja de volta. Seis meses sem escrever nenhuma linha de ficção, que não fosse a do jornalismo diário e a do TCC - que são ficções da realidade, de certa maneira.
Me sinto no final do Encontro Marcado, do Fernado Sabino. Futuro incerto, aquele papo : "Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro."
Aprendi algumas coisas nesse tempo todo. Aprendi que estudar longe (em São Bernardo) me deu tempo para ler um livro por semana no trem e metrô. Aprendi que alguns amigos vão ficar para sempre, mesmo que eu não os veja nunca mais (o que é bem provável). Aprendi a escrever um pouco melhor. Aprendi que o curso de jornalismo tem pouquíssimas mulheres bonitas. Aprendi que as surubas universitárias não existem de verdade. E que os porres valeram a pena. Tudo isso me passou pela cabeça enquanto eu ia embora, recebendo os parabéns da rapaziada.
Saí da facul com cinco reais no bolso, passei pela catraca - que quando entrei não existia -, no meu dedo não havia um anel - não, não sou doutor! -, eu tinha muitos planos e nada concreto, um bom pedaço de vida pela frente.
por Artur Rodrigues às 06:35 PM | fala
aí (6)
novembro 22, 2004
Falar bem dos EUA é a única saída
Depois do Bush, ficou chato falar mal dos EUA. A nova onda é o o papo do "neoconservadorismo" americano. Como se os EUA tivessem sido outra coisa alguma vez na sua história. O que todos esquecem é que os yankes fizeram muitas coisas legais também.
Minha vida, por exemplo, seria muito mais chata sem os filmes de gangster dos anos 80. Também seria mais chata sem o Taxi Driver. Apesar de tudo, os EUA são um pais legal. Deram ao mundo bons cineastas, muitas gostosas, música legal e escândalos da imprensa de fazer inveja.
Não vou cair no clichê de ficar citando uma coisa ou outra. O fato é que é essas influências são inegáveis. Por isso, é tão triste perder o direito de falar mal de um país que agora também desagrada até os mais fascistas editorialistas da imprensa brasileira. Até o Boris Casoy, o sujeito mais sujo e reacionário que conheço, arrisca o velho chavão para se dirigir aos EUA: "Isso é uma vergonha." Vergonha é ser pego dando o rabo para o oficeboy no banheiro, camarada. Tá ligado?
Pois se um monte de gente fala bem dos loucos muçulmanos e dos mais loucos ainda israelenses ("respeite a cultura", "está tudo no contexto", "os loucos são a minoria") por que não pensam isso dos EUA? Tem um monte de crente maluco - pior praga que ele nos legaram -, OK. Mas tem estagiária boqueteira, pastor de esquerda, político que é empresário do mundo pornô, assassinos de presidentes. Pelo menos, é um lugar movimentado. Quem diriam que os sujeitos que chegaram à Lua ensinariam a versão bíblica na escola? Ou que proporiam a castidade como remédio às DSTs? E, ao mesmo tempo, documentaristas fariam o presidente de palhaço no horário nacional?
É a terra de Alice, embora o tal de Carol (não o Papa) possa discordar. Não enchendo o meu saco aqui na ZL, tá bom. Basta continuar fazendo filmes legais, músicas legais e sendo bombardeado de vez em quando, que eu fico satisfeito. É lógico que um presidentezinho assassinado cairia bem a essa altura do campeonato. E talvez mais um Henry Miller também não fizesse mal a ninguém. Mas também não pode se querer tudo na vida.
por Artur Rodrigues às 11:35 PM | fala
aí (2)
novembro 06, 2004
De férias...
De férias...
por Artur Rodrigues às 10:13 AM | fala
aí (4)
outubro 25, 2004
bichos e gente
Morte de animal comove muito mais que morte de gente. Se entre os milhões de cadáveres dos filmes de ação estiver o de um cachorrinho valente, com certeza, o funeral dele será o mais concorrido.
Tenho notado isso lá no jornal. Semana passada, fugiu um chimpanzé e um PM fuzilou o bicho. Choveram cartas indgnadas. Outra vez, fiz uma matéria sobre um bicho-preguiça que foi espancado por um bando de crianças. A reação dos leitores foi a mesma.
cansei de fazer matérias sobre assassinatos, seqüestros e outras barbaridades. Ninguém está nem aí.
Conversando com uma colega acho que saquei o porquê disso. Talvez seja a ingenuidade dos bichos que comova as pessoas. Talvez, por que não?, seja falta de amor à humanidade.
Me incluo no pacote dos que ficam mais chocados com a morte de bichos que com a de gente. No entanto, desconfio que haja algo de errado nisso tudo.
Cansamos de matar bois, porcos e galinhas para comer. Mas também tem um monte de gente que para não atropelar um cachorro se envolve em acidente, perde a vida.
Tudo muito paradoxal. Deixa pra lá.
por Artur Rodrigues às 12:50 AM | fala
aí (6)
outubro 17, 2004
Outro dia eu fiquei com
Outro dia eu fiquei com vontade de comprar uma arma. Era um pensamento daqueles que você sabe que não vai passar de pensamento. Ficava imaginando eu, com uma 380 em riste, por aí.
No metrô, eu passo fuzilando os velhinhos no banco cinza. Olho para eles, digo: - Morre, velho!
Pá. Pá. Pá. Na testa.
Encheu meu saco. Pá. Reclamou. Pá. No pé. Só pra tirar um sarro. Pá. Pá. Pá.
Depois vai perdendo a graça a minha saga de matador. Melhor é ter dinheiro.
Em vez de matar os velhos do metrô, simplesmente ando de helicóptero. Pago alguém para limpar a bosta do meu cachorro. Pago sorrisos, gentilezas, sexo.
Mas tenho certeza que nessa de ficar comprando as coisas eu vou entrar numa crise existencial. Dessa dos ricos. Ou virar um sujeito mediocre igual ao Chiquinho Scarpa ou o Supla.
Penso. Ser Deus. Ser Deus é legal. Não rezou uma noite para mim. Vendaval. Jurou em falso. Furacão. Adorou imagens. Vulcão em erupção.
Deve ser legal brincar com essas arminhas de Deus. Furacões, pragas, maremotos. A Terra é uma espécie de ferrorama. Uma hora uma trem bate no outro. Se você estiver entediado, coloca um trem na direção do outro. Pronto. Acaba o mundo.
A falta do impossível na vida de Deus só pode ser suportada por ele.
Ser o diabo é uma boa opção. Corromper os fracos. Liberar os tímidos. Ferver os inimigos vivos feito carangueijos.
O diabo é uma espécie de terrorista cósmico. As vezes, é o herói. As vezes, o vilão.
Depois eu me canso e só quero a minha vida. Aos 9 anos de idade. Aos 13. Aos 95.
Agora, não sei. Talvez eu só queira um cigarro.
por Artur Rodrigues às 09:41 PM | fala
aí (13)
outubro 08, 2004
Aqui estou eu, rapaziada. Rapaziada?
Aqui estou eu, rapaziada. Rapaziada? Bom. Acho que foi todo mundo embora. Mas, de qualquer maneira, passei aqui para dar um alô e sem promossas de atualizações, pelo menos, enquanto não acabar meu TCC. Talvez eu mate este blog, para que ele acabe com dignidade. Essa vida de adulto não está me dando muito tempo para cuidar dos filhos. Melhor colocá-lo numa cestinha à espera de pais melhores.
por Artur Rodrigues às 02:22 PM | fala
aí (17)
setembro 21, 2004
ócio
Quase um mês passou sem que nenhuma letra violasse o silêncio em que caiu sobre esse blog. Hoje resolvi escrever. Estou de folga e passei o dia lendo, de samba canção e chinelos no meu quintal. Precisava disso.
Os dias de ócio, como disse muitas vezes, são fundamentais para qualquer um. Inclusive, para mim, que gosto do que faço. Não pensei em nada, simplesmente. E isso é a melhor coisa a se fazer na vida. O encanto termina quando você se flagra procurando o que fazer. Quem procura o que fazer não faz nada de bom. Os policiais procurando o que fazer surram os maconheiros na rua. Os políticos se metem em esquemas de corrupção. Os funcionários públicos simplesmente não acham o que fazer.
O tempo do ócio varia de pessoa pra pessoa. Para alguns, basta um dia. Para outros, anos. Vai da paciência e principalmente da impaciência de cada um. Conheço um cara que passou pelo menos um ano sem fazer nada. Dizia que fazia várias coisas, mas não fazia nada. Pensei: "Esse sim é um vagabundo de fibra." Mas nem mesmo ele aguentou tanto tempo. Um dia soltou um "preciso procurar emprego". Perdeu a oportunidade de entrar para o livro dos recordes.
É pela dificuldade de não se fazer nada que admiro os vagabundos de verdade. Antigamente, havia vários. Hoje em dia, até os ladrões são uorcarroliquis. Roubam um banco aqui e para não despérdiçar tempo roubam outro na esquina. São presos e obrigados a ficar sem fazer porra nenhuma por um bom tempo. E pior: em péssima companhia.
Mas vagabundagem forçada não conta. Os malandros dos tempo aureos da malandragem davam um golpe e só depois que acabassse toda a grana voltavam à ativa. Viviam como reis, mesmo ganhando pouco, nos morros cariocas e coisa e tal. Nunca vi nenhum deles se queixar, embora também não tenha conhecido nenhum deles.
Levar a vida na gaita, de acordo com os cientistas, aumenta o apetite sexual, o apetite, a vontade de tomar banho. Taí porque os índios trepavam muito e tomavam tantos banhos. Já trabalhar não dá vontade de nenhum dos dois. Vide os tipos frustrados nos escritórios e os tipos fedidos nos metrôs. Os bons malandros estão cheirosos, em casas, trepando, para depois tomar uma no boteco do seu Manoel.
Mas é preciso ter ética no mundo da vagabundagem e uma coisa que não tolero são os marmajos desempregados que passam a vida empinando pipa. Boa parte deles é quase retardado, muito diferente dos bons vagabundos, que gastam seu tempo com atividades decentes.
Esse vagabundo que eu citei gostava de jardinagem. Até que é uma coisa de respeito. Winston Churchil, já aposentado, além de beber, dedicava-se à jardinagem.
As praças públicas também são grandes aliadas dos vagabundos. Vide os clássicos jogadores de dominó ou os desempregados de banco de praça, sempre com jornal de classificados na mão, procurando, procurando, procurando, por anos a fio.
É por isso que as praças são importantes. Hoje, enquanto lia de samba canção e havaianas, poderia muito bem estar numa praça. Mas não há praças perto da minha casa e vagabundos não gostam de andar.
O dia de vagabundagem está acabando. Amanhã, volto à rotina do jornal diário. Como não são um vagabundo nato, eu não ligo. Mas sofro pelos que trabalharão amanhã, sem vontade. Por isso, fica uma idéia para algum deputado vagabundo que esteja lendo este texto: Por que não criar um auxílio vagabundo? A Europa tem vários mecanismos do tipo. Medida que movimenta a indústria editorial e de bebidas, além de regulamentar a situação dos vagabundos por vocação.
Lembre-se, senhor deputado, um pais com muitos vagabundos está a um passo de ser primeiro mundo. Imagine quantas vagas de emprego não iriam surgir direta (pelos que abndonariam seus empregos) e indiretamente (por toda a indústria que ele movimentaria, incluindo dominós, baralhos, cervejas, jornais, entre outras coisas).
Acho que já perdi muito do meu dia de folga escrevendo isso. Até a meia-noite não faço mais nada. Decidido.
por Artur Rodrigues às 09:10 PM | fala
aí (13)
agosto 28, 2004
Névoa, noite, casas
A névoa toma toda a calçada em que me encontro. Uma espécie se sinfonia melancólica toca no meu peito, subindo e descendo pelas pernas, pela nuca, esvaziando-se na minha boca, uma ânsia de vômito oca, sem vômito, sem nada, tão vazia quanto nada pode ser. Eu caminho devagar, sem pressa, quer dizer, apressado, como que esperando que algo aconteça. Algo tem que acontecer para quebrar esse silêncio gélido que penetra meus pulmões como se fosse a própria morte. Um gato, uma miado, dois gatos copulando, seus gemidos mórbidos me tirariam do estado em que me encontro.
Presto atenção nas casas. São belas casas. Eu que tenho mania de olhá-las, como se fosse me estabelecer em alguma delas, olho se seus quintais são espaçosos, fico imaginando quantos quartos, talvez um porão ou sótão, tenho uma fixação por sótãos, talvez porque nunca tive um. Ainda não tenho. Olho para essas casas me esquecendo de que para tê-las precisaria mais que dinheiro, precisaria estar vivo. Olho esperando que alguma luz se acenda lá dentro, alguém abra uma janela, acenda a lareira, alguém me chame para tomar um chá, ou um café. Mas isso não acontece.
Estou caminhando há algum tempo, já. Esperando, esperando, interminalvemente, esperando. Só o barulho dos meus sapatos. Tec, tec, tec; nem o barulho dos meus sapatos muda de tom, por mais que eu pise diferente, que eu pule, que eu os arraste no chão, o mesmo tec, tec, tec. Apesar da baixa temperatura, estou com sede. E estou suando frio, por debaixo dessa jaqueta de couro, dessa calça jeans, dessa touca.
Um carro passa. Que alívio esse carro que passa. Ele pára, uns cem metros de onde estou. É um carro importado. Vejo uma alma saindo dele. É uma alma de mulher. Quase tropeço nas pedras da calçada, cheia de intervalos, buracos cobertos de grama, de uma grama verde como só nesse bairro a grama pode ser, verde como o dinheiro de que são feitas as casas daqui, os muros daqui, os sonhos daqui.
A mulher anda devagar lá na frente. Eu ando mais rápido, quero alcançá-la, mas, de repente não quero, mas tenho que chegar até ela, para ver os seus olhos, para ver o vapor branco saindo das suas narinas como estou vendo sair das minhas agora. Estou chegando mais perto, mais perto, mais perto. Ela percebe e acelera o passo. Sou tentado a não segui-la mas tenho de fazê-lo, não posso voltar para casa antes de ver o maldito vapor sair de suas narinas.
Eu corro. Ela corre também. Uma silhueta esguia, agasalhada por um casaco pesado. Está de saias, ou um vestido, não consigo distinguir. Corro. Ela corre. Eu consigo alcançá-la e vejo e sinto e respiro o vapor que sai do seu nariz. Ela está amedrontada, grita baixo, sussurra que não, não, não. Eu a estapeio, chamo de vagabunda e a empurro contra um portão. Sinto uma sensação horrível. Não, eu devia ir embora daqui, devia dar no pé agora mesmo e voltar para o meu apê, com ar condicionado, para o meu apê, que não usa saias como ela e que não grita como ela e que não arranha meu rosto quando rasgo sua calcinha e a jogo dentro da mansão dos ricaços, para que eles fiquem imaginando o que acontece de noite aqui nessa região. Já vejo suas caras falando da violência em que vivemos.
Ela é forte. Estamos caídos no chão e ela resiste. Suas pernas são grossas, mas flácidas, essas coxas, esses pêlos, as pernas coladas uma a outra, as palavras de ódio e de misericórdia que se misturam nos meus ouvidos. Eu quero sair daqui, mas meu sexo duro, duro como um poste e vivo como um deus em ebulição não deixa, ele quer ficar, logo agora que abre espaço entre as pernas flácidas e vê os olhos de horror que eu vejo.
Estou com pressa. Sei que a estou machucando. Sei machucá-las quando eu quero. Essa merece ser machucada, para sair daqui mancando, rastejando e chorando o meu pênis rijo e incandescente. Ela diz Pára. Eu digo Cala a boca, sua puta, cala a boca, senão parto sua cabeça no meio, sem parar de trabalhar, estocadas profundas, não tão profundas, potentes. Por um momento sinto que ela me puxa com as pernas mas estou enganado, é ela tentando empurrar meu corpo para trás, mas eu sou pesado, muito mais pesado que ela, e meu pênis é inchado feito um cogumelo e me seguraria aqui mesmo que jogassem baldes e baldes de água quente.
O sexo dela treme e o meu se desfaz dentro dela. Nos desfazemos um no outro e por um momento toda a névoa desaparece, o silêncio dá lugar à outra coisa, que não é barulho, não é som, não é. Eu saio de cima dela tonto, gelado, o nariz gelado, e por um momento vislumbro o rosto que já passou da juventude, mas ainda carrega traços harmoniosos, bem definidos, mas é só por um instante, menos que isso. Ela levanta, pega na minha mão e me olha um olhar esquisito, um olhar terno de gratidão, um olhar furioso e terno e totalmente incompreensível. Segura minha mão com força, com suas duas mãos, e eu me sinto culpado, quero levá-la para casa. Mas a sensação passa quando ela solta minha mão e vai, desaparece pela névoa. Fico esperando o barulho do carro, mas não ouço e como demora, e como demora, agora quero vá embora daqui para sempre, quero minha casa quero minha cama, qualquer coisa menos essa solidão.
Fico olhando o carro desaparecer na rua bonita e lúgubre. Ela está no banco do passageiro. Quem dirige é um vulto de homem que faz força para não me olhar nos olhos quando passa por mim. Lá vai o carro importado pela rua...
Olho à minha volta. A calcinha dela caiu em cima de um chafariz. Meu corpo está leve, mas sinto a alma pesar. Preciso de um café, urgentemente, preciso de alguma palavra nos meus ouvidos, uma nesga de som, mesmo que seja a de algum atendente estúpido, mesmo que seja a de qualquer um. Fico olhando para minha mão fechada, como que lacrada para sempre pela dela.
Ando sem pressa. Agora o silêncio não me inquieta mais. Posso olhar as casas sem preocupação, minha velha mania, lembrar da minha casa pequena, mas muito pequena, da infância. Abro finalmente minha mão lacrada, cauterizada e coloco as várias notas no bolso. Preciso de um banho, preciso de um café. Estou sujo, sou sujo, penso com ironia, um sorriso que faz cócegas na minha boca. Acendo um cigarro e caminho, desenhando traços infantis no ar pesado e luminoso.
por Artur Rodrigues às 02:12 PM | fala
aí (19)
agosto 16, 2004
viva chavez!!!
por Artur Rodrigues às 02:29 PM | fala
aí (11)
agosto 13, 2004
Eu não quero acreditar, mas
Eu não quero acreditar, mas tudo junto parece até conspiração. Tentativa de limitar os poderes do ministério público, uma lei que proíbe funcionário públicos de falarem com a imprensa, criação de um conselho dos jornalistas, que, na prática, serviria só pra tentar amansar a turma. O engraçado é que as propostas por sí só não soam tão absurdas e, cada uma delas, tem motivos que se não são os que acho certo pelo menos parecem plausíveis. Mas assim, logo depois, um monte de inforção inoportuna vazar. Sei lá...
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Li um conto do Sérgio Santana, que não conhecia, achei fenomenal. Chama-se notas de Manfredo Rangel, repórter. A estrutura mistura anotações, entrevistas e impressões do repórter sobre um político que me parece muito tipinho que já pisou no Planalto. O grande mérito é transformar uma coisa que tinha tudo para ser chata numa puta história. O conto está na relíquia Os Melhores Contos de 1973, que adquiri recentemente.
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O Reichenbach vai lançar um filme. Quero ver.
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O Benjor lançou um disco que dizem que parece dele. Há anos ele não fazia isso. Quero ouvir.
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Conheço um cara que arrasta mulher pelo Orkut. Até agora, é o único.
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As coisas aparecem e desaparecem. Onde está a mágica? Acho que é em quem vê.
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Descobri que é impossível ser formiga e cigarra ao mesmo tempo. Chato, isso.
por Artur Rodrigues às 12:04 AM | fala
aí (8)
agosto 07, 2004
Me afoguei no capuccino
Profissões. Já tive várias. A maioria delas, péssimas. Já trabalhei entregando santinhos de vereador, carreguei caixas, fui contador, até entrar no jornalismo. A pior de todas foi como atendente de telemarketing.
O martírio durou três meses, um dia e seis horas. Ainda me lembro do prédio metálico, de móveis metálicos, até as privadas com molde futurista. Tinha crachá e um café de máquina, que até hoje me lembra telemarketing, mas que foi o único responsável pela minha sobrevivência. Eram seis horas de trabalho. Quinze minutos de folga, que eu preenchia com cerca de 5 ou 6 capuccinos com chocolate. Além da cafeína, a sensação de dar algum prejuízo à multinacional tinha um que de consolador.
O trabalho consistia em agendar consultas para o SUS. Detalhe: não havia vagas jamais. Portanto, além de “senhor” e “senhora” eu só dizia: não há vagas. Não. Senhora. Há. Senhor. Vagas. Bom dia, boa tarde, boa noite. E atrás de mim, com um chicote não mão, ficava plantada a tal da coordenadora. “Estamos com 160 pessoas na fila! 150! 140! Um milhão!”. Como se a velocidade do trabalho dependesse da minha performance, como se quando eu terminasse uma ligação não viesse outra, automaticamente, interminavelmente, o fone no ouvido, o nó na garganta, os cafés no estômago, mil gritos de guerra na alma: NÃO-HÁ-VA-GAS, SE-NHO-RA!
Uma menina de 24 anos teve um infarto, a 5 metros de mim. Passei a tomar mais café. Morro de úlcera, de enfarto, não.
Um dia o telefone tocou. Era o celular. Arrumei outro emprego. Nem liguei, peguei os passes, saí, queimei o uniforme, joguei no esgoto, sei lá o que fiz. O salário era bom, mas troquei por um que era três vezes menor.
Ligaram pra minha casa perguntando o que tinha acontecido. Eu estava doente? Não, senhora, estou é de saco cheio. Não, não vou devolver os passes, nem o uniforme, nem nada. Morri, não me encham mais. Desliguei.
Isso deve fazer uns quatro anos, foi, no começo da faculdade. Não, não aprendi nada com isso, mas essa noite estava aqui, satisfeito, e lembrei das pessoas que trabalhavam comigo, gente simples, não muito inteligentes, talvez não cheguem a lugar nenhum, outros já devem ter enfartado, ou, seguindo meus passos, afogaram-se no capuccino. Morreu de quê? De telemarketing. Boa noite, senhores. Tu. Tu. Tu.
por Artur Rodrigues às 11:54 PM | fala
aí (5)
agosto 02, 2004
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Já escrevi três posts natimortos. Todos na gaveta, empoeirados, no desktop B. Tenho a impressão que esse blog está em coma.
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Lendo As Meninas, da Lygia Fagundes Telles. Bom. Que dizer mais?
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Fiz uma reportagem sobre um cavalo que ficou três dias agonizando num córrego, com a pata quebrada. Morte de gente. Cavalo não morre assim.
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Não abro mais os emails. Eles também não chegam. Acho que uma coisa deve estar intimamente ligada à outra. Talvez.
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Ando trabalhando TCC. Ando devagar. Vontade de começar depois de pronto. Nunca fui disso.
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Falou.
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Tudo isso é desculpa para usar o asterisco. Adoro asteriscos. Se fosse Deus, fazia um céu cheinho deles. Uma galáxia cheia de aforismos.
por Artur Rodrigues às 10:15 PM | fala
aí (11)
julho 21, 2004
...
Putz. Faz tanto tempo que eu não posto aqui que quase desaprendi a escrever. Sem contar o fato de que estar trabalhando num jornal diário ajuda muito nesse aspecto. Se há uma coisa que não dá para se fazer direito num diário é escrever. Porque se você escrever mal, ninguém dá a mínima. Agora erre a grafia do nome de alguém... Aí lá vem carcada. E são tantos alguéns, bairros, cidades, endereços, telefones.... que mal sobre tempo para eu me dedicar ao que mais gosto de fazer, que é dedilhar o teclado, pacientemente, em busca de algo que valha a pena ser escrito.
Só para se ter uma idéia, se eu fosse escrever o que eu disse aí em cima ia ficar mais ou menos assim no jornal:
"Artur Rodrigues informou que não posta nenhum texto em seu blogue desde o último dia 11. Segundo ele, o jornal diário não possibilita um texto mais refinado devido ao excesso de informações a serem apuradas em pouco tempo. Rodrigues diz lamentar o fato, já que a parte do trabalho jornalístico que prefere é a redação."
Sacou? É dureza, mas é um barato. Descobri que a área de crimes não é a que eu prefiro. Ando escrevendo matérias de cidades, indo a cemitérios, favelas, rios sujos. O mais incrível é que basta um textinho no jornal e está resolvido o problema de muita gente. Chego até a acreditar no jornalismo sério, nessas horas... Mas passa, só sair da redação e o meu cinismo volta para o lugar dele, ocupa todos os espaços do meu cérebro e não deixa lugar para que qualquer coisa inteligente saia de lá. Sorte minha.
Ah, andei lendo Fitzgerald e gostei. Suave é a noite. Começa chato e depois é arrebatador. Lembra o Brasil nas eliminatórias e, depois, magnífico, na Copa do Mundo. Virtude e defeito de quem sabe que é bom. O Brasil e Fitzgerald.
Estou ficando com sono. Amanhã é minha folga e faz tempo que não escrevo uma linha de ficção. É bom, areja as idéias. Demorei tanto apra terminar meu livro que, às vezes, não concordo com ele - esse ente vivo, feito um bicho geográfico, que vai deixando sua marca e nunca sai de mim.
Falei demais. Meus dedos estão doendo. Uma especie de tendinite, sei lá. Até mais, fui dormir.
por Artur Rodrigues às 01:25 AM | fala
aí (31)
julho 11, 2004
Chico, FLIP e a mulher paranóica
Estava lendo uma matéria na Ilustrada. Era sobre o bate-bola dos escritores na FLIP, contra o time de Parati. Por incrível que pareça, os escritores ganharam. Mas não duvido que os organizadores tenham escolhido um time meia-boca para as estrelas não perderem. Chico Buarque foi o jogador mais festejado. Aliás, o motivo do jogo só pode ser Chico. Pretexto pra falar dele, pra ele se mostrar.
O brasileiro alfabetizado é carente de Chico Buarque. Tão carente que um jogo de bola com ele vira matéria de três laudas. Mais do que a maioria das matérias sobre a própria FLIP. Chico é maior que a festa. Chico, principalmente para a imprensa, é o marido que depois de dar uma trepada fenomenal, resolve ir comprar cigarro e passa a noite na rua. A mulher (imprensa) fica lá acordada, pensando no que está fazendo seu homem. Faz várias conjecturas. Vira paranóica. Deve estar numa suruba. Ou pior, numa suruba em que só tem ele de homem. Tirando a desmesurada diferença de talento, pode-se dizer que o Caetano seria o contrário. O marido (para não ser maldoso) que dá umazinha e depois fica fazendo carinho a noite toda, leva café na cama e o escambau. A mulher não quer ver mais o sujeito na frente. Aí está a diferença do culto a Chico Buarque e do ranço a Caetano Veloso.
Não basta ele ser um dos melhores compositores populares da história do Brasil. Não basta ser um bom escritor. Eles querem mais. Ele tem que ser bom de bola, comedor, bonitão, para agradar à paranóia da mulher em seus devaneios solitários. Ele, dessa forma, aumenta o culto a sua imagem. Ela cai na babaquice. Machado de Assis andava sossegado pela rua. Veja bem, Machado de Assis. Isso porque a imprensa não vivia o canibalismo de hoje. O assédio, nesse caso, por parte da dita imprensa cultural metida a besta é tão chulo quanto o da TV Fama. E uma festa como essa não ajuda em nada a literatura em si, só tenta criar uma industria editorial tão forte quanto a americana nessa área.
Quer ajudar a literatura? Pois ensine literatura nas escolas públicas. Depois espere 12, 13 anos. Aí você vai ver a literatura renascer. E, para quem está interessado só na grana, a industria editorial também vai crescer junto com a qualidade da literatura. Aí Chico vai poder jogar bola em paz (embora eu acredite que ele estará bem longe dos campos quando isso acontecer) sem transformarem isso num grande acontecimento. Talvez, nesse dia improvável, a mulher deixe de onda e durma sossegada. Ou arranje outro, porque haverá outros dando sopa por aí.
por Artur Rodrigues às 10:00 PM | fala
aí (37)
julho 09, 2004
Senhoras e senhores, apresento-lhes Zé
Senhoras e senhores, apresento-lhes Zé Guerra.
por Artur Rodrigues às 08:08 PM | fala
aí (25)
Notas da redação
Chego cedo na redação. Minha missão: encontrar defuntos. Ligo pra delegacia. E aí, homicídio, assalto, sequestro essa madrugada? Não, tá sossegado por aqui. Quase digo: Que bosta! Mas acabo soltando um "então tá bom", desanimado.
Em uma semana de trampo, que eu me lembro, um pai tentou matar o filho chapado com um canivete, uns três ou quatro acertos de contas em Diadema, um estuprador com quatro vítimas nas costas, um espancamento, outro espancamento, só que dessa vez foi um bicho-preguiça (matéria do bróder Cervantes), duas mulheres apagadas num parque (tiro na nuca), uma delas grávida. Chegou o fotógrafo na redação e mostrou a foto pra rapaziada. Uma era só a caveira, um dos olhos arrancados pelos urubus. A outra tinha o rosto despedaçado pelos ratos.
O estranho é que encaro isso tudo de forma muito natural, o que, naturalmente, não é. Quando entro na redação, esqueço que morte quer dizer morte, que corpo quer dizer corpo, que gente quer dizer gente. É o assassinato, o presunto, a vítima. Acho que é assim que os médicos acabam vendo as pessoas, depois de algum tempo. O meu tempo é que foi rápido demais. De certo modo, é até bom. Tiro um pouco desse apego. Morreu, morreu, virou manchete.
por Artur Rodrigues às 07:32 PM | fala
aí (5)
julho 06, 2004
Agora estou trampando aqui. Editoria
Agora estou trampando aqui. Editoria policial. Matou alguém? Manda um email por titio, vai...
por Artur Rodrigues às 10:13 PM | fala
aí (95)
julho 04, 2004
Quem vê cara... se dá por satisfeito
Por Artur Rodrigues
De manhã, o espelho não costuma trazer boas surpresas para muita gente. Mas, normalmente, é sempre o mesmo rosto que está ali, ainda com as marcas de uma noite de sono. Dessa vez, porém, a figura refletida era outra: rosto todo maquiado, cabelos coloridos, nariz vermelho de borracha. Os trajes não ajudavam: uma camisa azul brilhante, combinada com uma espalhafatosa calça amarela até os joelhos, cobertos por um meião, e os pés impecavelmente calçados com não menos vistosos sapatos tricolores - vermelho, preto e branco. Só após acabar o processo de maquiagem e verificar o resultado é lembrei o porquê do meu medo de palhaços na infância. Gravador e bloco de notas na bolsa, maquiagem extra e espelho para conferir os retoques, estava tudo pronto para a realização da reportagem.
A vizinhança estranhou o palhaço abrindo o portão da garagem. Uma mulher que passava apontou-o para o filho que, prontamente, desatou a chorar. Era só o começo daquele longo dia de sol, que me reservava muitas surpresas ainda.
A importância da imagem
Os anúncios de emprego pedem boa aparência. Os comerciais de TV alegam os benefícios mirabolantes dos remédios para emagrecer, xampus, cremes anti-envelhecimento. As cirurgias plásticas, antes restritas aos ricos, hoje podem ser divididas em até 24 prestações e cabem no bolso da classe média. Ser bonito é uma obrigação. Ser feio é um crime.
Num mundo em que a imagem é tão importante, cada ambiente pede uma roupa, uma postura diferente, uma nova máscara. Caso contrário, cria-se um foco de tensão que pode gerar as mais diferentes reações. Para avaliar até que ponto a imagem pode influenciar no comportamento das pessoas, nada melhor que “caprichar” no visual. No caso dessa reportagem, a figura escolhida foi a do palhaço. Os palhaços são bem aceitos animando as festas infantis ou nos circos, mas... e passeando pela cidade, no trânsito, nos bancos, galerias de arte, restaurantes? É pagar pra ver.
O destaque e o anonimato
Parado num semáforo, um adolescente vende balas de carro em carro. Ao me ver postado atrás volante, dá risada, provavelmente, achando que os palhaços são bons compradores. Erro dele.
- Hoje não, obrigado.
- Palhaço feio, idiota – grita o ambulante, antes que o farol abrisse e eu caísse no trânsito de uma movimentada avenida da cidade.
Logo de cara, um sujeito quase bate o carro ao me ver ao volante. Já um adolescente, da janela de um Fusca, me faz sinais nada lisonjeiro, enquanto um casal com saudade da infância cisma em buzinar (pá-pá-ra-ra-pá) para que eu responda com o clássico “pá-pá”.
Definitivamente, um palhaço é uma atração no circo tedioso que é o trânsito da cidade. Mas a coisa muda de figura quando chego à Praça da Sé. Sou só mais um, em meio aos homens-estátua, faquires, malabaristas, pastores exaltados etc. A impressão que dá é que se um ET andasse pelas ruas do centro de São Paulo passaria despercebido.
Na fila do caixa-eletrônico, ninguém se atreve a olhar para a minha cara. Mas o burburinho chega aos meus ouvidos e se tornam gargalhadas quando saio porta ao fora, em direção ao Fórum da Praça João Mendes.
A justiça é igual para todos? Bem... segundo o segurança que me barrou na porta, não. “Você está achando que isso aqui é um circo”, vociferou. Ainda perguntei se ele tinha alguma coisa contra os palhaços, mas o brutamontes levou para o lado pessoal. “Você está me achando com cara de otário?!”, disse, ameaçadoramente próximo. Calma aí, “seu” segurança, eu explico já.
Nascido para ridicularizar
No século XVIII, os palhaços surgiram para ridicularizar as atrações oficiais das trupes, bastante influenciados pela comédia dell’arte italiana. “Enquanto o equilibrista e o trapezista lidam com o sublime, o palhaço traz à cena o grotesco, o estúpido”, explica o filósofo Mário Fernando Bolognesi, autor do livro Palhaços (Editora Unesp).
Por meio de recursos cômicos, o palhaço nasceu para falar o que, normalmente, não se fala, fazer o que não se faz. Não é à toa que na peça “Rei Lear”, de Willian Shakespeare, o único personagem que só diz a verdade é o Bobo. Tamanho desprendimento, honestidade, sarcasmo se deve ao fato de o palhaço assumir outra personalidade depois de fantasiado. O disfarce que lhe proporciona essa sinceridade quase infantil também o torna diferente de todos os outros e, por isso mesmo, só aceito plenamente no picadeiro.
Entre livros e engraxates
A julgar pelo tratamento que recebi do encarregado de guardar a entrada do pregão da Bolsa de Valores, a cartilha dos seguranças deve ter alguma menção do tipo: “Tome cuidado, especialmente, com os palhaços. Apesar da aparência inofensiva, aquele nariz pode esconder um assassino brutal”. Mal me aproximei e o engravatado foi falando pittibullescamente: “Sai andando, sai!” (Mais tarde, já com uma arma apontada para minha cara, o tal segurança me pareceria um anjinho.)
Já que não podia circular pelo tenso ambiente do templo de nosso flutuante e cambiante capitalismo, pelo menos, pude apreciar a exposição de Anita Malfati, ali mesmo, no Saguão da Bolsa. Temo ter chamado mais atenção que a talentosa pintora modernista, levando em conta os olhares desconcertados que os visitantes me dirigiam. Mesma atitude, inclusive, do funcionário de um sebo, que mais tarde me confidenciou:
- É que nunca atendi um... palhaço por aqui.
- Então faz o seguinte: me dá um desconto naquele livro ali – disse eu, apontando um exemplar de Ana Karenina, de Tolstoi – que eu volto sempre e você ganha um cliente palhaço (ou seria um palhaço cliente...).
Feito.
Achava que maré estava começando a virar a meu favor, quando resolvi engraxar meus sapatos, já gastos pelo antigo dono, nas quadras de boliche. O engraxate deve ter achado que meus sapatos não eram dignos da mesma cadeira onde sentam os executivos de passagem por ali, com seus cadernos de economia em punho, e disse que não tinha graxa colorida.
- Pode ser com graxa incolor - insisti.
- Também não tenho – respondeu, de má vontade.
Por sorte, nem todo engraxate é preconceituoso. Saí de lá orgulhoso dos meus sapatos lustrosos.
Para terminar o dia...
No final da tarde, meu rosto mais parecia uma tela expressionista. A maquiagem escorria misturada ao suor e os olhares que me dirigiam eram mais de pavor que de surpresa. Já deu, né?, pensava eu quando de repente: “Encosta, encosta, encosta!”, gritava o policial à minha frente, apontando a arma para o carro.
No retrovisor, pude ver mais dois trabucos, que fariam inveja a muito traficante carioca. “Sai, com as mãos pra cima.” Devagar, abri a porta e saí do carro. Foi o suficiente para os três policias caírem na gargalhada.
- Que p... você tá fazendo de palhaço?
- É meu trabalho, oras.
- Você não se troca não.
- Hoje não deu tempo.
- Cada uma que me aparece. Pode ir, é só uma blitz de rotina...
Ps. Matéria publicada na revista Jornalismo em Ação, da Universidade Metodista, onde estudo só até o fim do ano.
por Artur Rodrigues às 03:02 PM | fala
aí (15)
julho 01, 2004
Se falta ginga a gente
Se falta ginga a gente dança.
por Artur Rodrigues às 06:18 PM | fala
aí (6)
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